
Bárbara Aguiar – jornalista em formação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)
Entre 2020 e 2024, os meses de julho a outubro tiveram queda contínua nas cotas de sete estações de monitoramento em cinco dos principais rios da bacia do Amazonas. Também foi nesse mesmo período que houve o registro de 93% (90.998) dos focos de fogo no Amazonas.
Entre 2020 e 2024, à medida que os focos de calor aumentavam no Amazonas, pelo menos cinco rios no estado enfrentaram secas, com baixa contínua em sete das 13 estações de monitoramento do nível das águas nos rios Amazonas, Purus, Solimões, Negro e Paraná do Careiro. É o que revela uma análise exclusiva da InfoAmazonia, com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e de estações hidrológicas do Serviço Geológico do Brasil (SGB), que monitoram os níveis na bacia amazônica.
Nos mesmos meses de secas nos rios, os dados do Inpe apontam uma tendência de aumento nos incêndios florestais também entre julho e outubro nos últimos cinco anos. Juntos, esses meses somaram 94% (90.998) dos focos de calor no estado na temporada. Nesse período, os boletins do SGB mostram queda contínua de água em cinco dos principais rios da bacia Amazônica. Todos registraram níveis de água abaixo do normal, o que causou escassez hídrica e prejudicou, principalmente, comunidades ribeirinhas.
Na avaliação do engenheiro ambiental e hidrólogo Ayan Fleischmann, que atua como pesquisador no Instituto Mamirauá, voltado para a conservação na Amazônia, a seca dos rios e o alto número de incêndios têm relação com um mesmo problema: a redução de chuvas por fenômenos associados às mudanças climáticas.
“Um ano mais seco, com menor quantidade de chuvas, tende a aumentar as queimadas e reduzir a umidade, criando condições favoráveis à propagação do fogo. Por isso, é comum que esses eventos ocorram simultaneamente”, explica.
Impactos dos incêndios no volume de chuvas
A relação entre o aumento no número de incêndios e a seca na Amazônia é complexa e ainda não foi totalmente explicada pela ciência. No entanto, há estudos que indicam que a queima de áreas florestais tem efeito direto na formação de nuvens de chuva.
Fumaça e grande faixa de areia marcaram a paisagem do porto de Tefé em meses de seca. Cidade fica às margens do Rio Tefé, afluente do Amazonas (Foto: Reprodução/YouTube/Ribeirinhas da Amazônia) |
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram em 2021 que as partículas de fumaça liberadas pelos incêndios propiciam uma atmosfera mais estável, o que pode limitar a ascensão das massas de ar e impedir que as nuvens atinjam a altura adequada para o resfriamento das gotas de água. A descoberta foi publicada em um artigo da revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature, um dos mais importantes do mundo.
A pesquisa analisou imagens de satélites, dados de fotômetros solares, que são instrumentos utilizados para medir a radiação solar, e medições de partículas formadas pelas queimadas para mostrar como os resíduos de fumaça inibiam o desenvolvimento de nuvens de chuva.
“A fumaça de queimadas contém uma quantidade gigantesca de partículas de aerossol que, também estando presentes na atmosfera, podem influenciar como as gotas de nuvens são formadas e o processo de congelamento subsequente”, explica Alexandre Correia, um dos autores da pesquisa, em entrevista ao Jornal da USP.
Conforme o estudo, a temperatura de glaciação (ponto em que a água começa a congelar) média em nuvens convectivas na Amazônia depende da umidade e quantidade de aerossol presente na atmosfera. Em ambientes com muitas partículas de aerossol, as gotículas formadas são menores e demoram mais para se congelar — esse atraso promove o crescimento de nuvens mais altas e profundas, mas pode diminuir a eficiência do processo de precipitação porque as gotas menores têm menos probabilidade de coalescer e formar gotas de chuva maiores.
Além de prejudicar a formação de chuva, um dos resíduos liberados durante a queima é o carbono negro, um poluente climático de curta duração que fica suspenso no ar por alguns dias ou semanas, mas com impacto até 1.500 vezes maior que o dióxido de carbono no aquecimento global.
2024: o ano mais severo nos últimos cinco anos
No período da análise, o ano de 2024 foi um dos mais severos no Amazonas. O estado enfrentou um conjunto de situações climáticas extremas: a seca histórica dos principais rios da região e o alto número de incêndios florestais. Entre julho e outubro, o estado acumulou 94% (24.005) focos de calor do ano, um recorde desde 1998, quando o Inpe iniciou a série histórica — à época, foram 737 focos no mesmo período.
Durante todo o ano passado, por exemplo, o Amazonas registrou 25.499 focos de calor. Três meses bateram o recorde histórico de toda temporada: julho (4.241), agosto (10.328), e até junho (258), que geralmente é um período com menor incidência de queimadas na Amazônia.
Os rios que mais perderam volume de água nos meses analisados foram: o Purus (queda de 1.407 cm, na estação de Beruri, equivale a 14 metros – aproximadamente a altura de um prédio de quatro andares), o Solimões (queda de 1.394 cm, em Manacapuru) e o Paraná do Careiro (queda de 1.306 cm).
O rio Solimões, responsável pelo abastecimento de água potável de metade das 72.283 pessoas que vivem em Tabatinga, também está entre os mais impactados e registrou seca nas quatro estações monitoradas pelo SGB (Fonte Boa, Itapeuá, Manacapuru e Tabatinga). Em Tabatinga, o Solimões perdeu 529 cm de água e ficou em -79 cm (117,5%) entre julho e outubro.
Antes mesmo de encerrar, 2024 demonstrava ser o ano de seca sem precedentes para os principais rios da bacia do Amazonas. Em outra análise exclusiva, feita em outubro, a InfoAmazonia revelou que em 11 das 16 estações de monitoramento nos seis rios registraram os níveis mais baixos dos últimos 122 anos, desde o início do monitoramento do SGB. Na época, a reportagem identificou uma mudança no padrão da seca: os rios secaram mais cedo do que o previsto, entre o final de setembro e o começo de outubro, quando o esperado seria seca no final de outubro.
Entre os rios com níveis de água extremamente baixos em relação ao número de focos de incêndio está o Paraná do Careiro, que perdeu 102% do volume de água em apenas cinco meses. A diminuição do nível começou em julho, quando o rio registrava 1.324 cm de água, e atingiu -25 cm no início de novembro. Em 2023, no mesmo período, o volume de água era positivo, com 47 cm. A seca severa de 2024 ocorreu alguns meses após o estado enfrentar o recorde de 24 mil focos de calor registrados entre julho e outubro.
A seca e o impacto na biodiversidade
A falta de água impacta na vida da população e, principalmente, na sobrevivência dos peixes. O biólogo Guillermo Estupinan, que é especialista em recursos pesqueiros na Wildlife Conservation Society (WCS) Brasil, organização que atua com a conservação ambiental, explica que a seca nos rios faz com que a temperatura da água fique mais quente e peixes morrem por falta de oxigênio. Além disso, há casos em que esses animais encalham em bancos de areia e até ficam presos em pequenos lagos.
“Os peixes morrem afogados pela falta de oxigênio, principalmente. Com o baixo nível de água, a alta temperatura e muitos peixes concentrados no mesmo local, o consumo de oxigênio é mais alto do que o que está disponível na água”, afirma o biólogo.
Ele também aponta que, em alguns casos, peixes podem morrer mesmo em lagos com grande volume de água devido à contaminação causada pelas queimadas. “Parte da vegetação queimada se decompõe, liberando sulfato e outros compostos químicos. Esses elementos se misturam à água, levando à intoxicação e asfixia de muitos peixes que permanecem na região.”
Em 2023, morreram 209 golfinhos amazônicos — 178 botos-vermelhos e 31 tucuxis — devido ao superaquecimento das águas no lago Tefé, localizado a 14,7 km do rio Tefé, um afluente do Solimões.
À época, o caso foi revelado pelo Instituto Mamirauá, que se dedica ao estudo de aspectos biológicos, ecológicos e demográficos relativos a cinco espécies de mamíferos aquáticos da região amazônica: peixe-boi, tucuxi, boto vermelho, ariranha e lontra. O lago Tefé alcançou mais de 40°C naquele ano, segundo o instituto.
Seca muda rotina de ribeirinhos
Os impactos das mudanças climáticas nos rios e da degradação ambiental na Amazônia, agravados pelas queimadas, transformam a rotina das comunidades ribeirinhas. As irmãs Fabiane e Fabíola Pedrosa, moradoras da comunidade Santa Luzia do Baré, recordam que, em 2024, até mesmo a locomoção se tornou um desafio. A região fica localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, às margens do Lago Amanã, no médio rio Solimões, próximo à confluência com o rio Japurá, distante 527 km de Manaus.
Fabiane e Fabíola arrastam canoa por um pequeno rastro de água até o lago (Foto: Reprodução/YouTube/Ribeirinhas da Amazônia) |
As duas compartilham em um canal no YouTube, o “Ribeirinhas da Amazônia”, o dia a dia na comunidade, incluindo situações adversas como as causadas pela seca.
“A gente teve muita dificuldade para sair da nossa comunidade até a cidade mais próxima, Tefé, para comprar mantimentos. Muita gente nem conseguiu sair daqui até a cidade devido a ter ficado muito seco mesmo, muito difícil o acesso. Muitas passagens fecharam, ‘taparam’, como a gente diz aqui. Então, nem de canoa e de transporte menor estávamos conseguindo”, relata Fabíola.
Para Fabíola, a solução para diminuir as dificuldades nos meses de seca vai além de oferecer cestas básicas, como ocorreu em 2023, quando o governo do Amazonas distribuiu alimento e outros suprimentos a algumas regiões. Ela defende que o principal é garantir que as comunidades indígenas e ribeirinhas tenham acesso à água e energia:
“Para ligar a bomba d’água, tem que ter o gerador de luz. É uma coisa dependendo da outra. Se não tem diesel para abastecer o motor, para ligar a bomba d’água, não adianta de nada ter um poço. Então, o governo investir nisso, deixar bastante combustível para as comunidades, ou fazer a instalação de um painel solar só para usar no poço, para não ter esse gasto com diesel, com motor, seria mais prático”, pontua ela, que sugere também a perfuração de poços em comunidades que ainda não possuem água encanada.
Fabíola enfatiza, ainda, a necessidade de uma atenção maior à saúde, com doações de medicamentos, kits de primeiros socorros e a disponibilização de profissionais de modo contínuo para o atendimento básico.
Moradores de Santa Luzia do Baré, no lago Amanã, enfrentam jornada de até 2 dias para chegar à cidade mais próxima, Tefé (Foto: Google Earth/LandSat) |
Atualmente, os moradores de Santa Luzia do Baré contam com uma unidade básica de saúde em Boa Esperança, outra comunidade da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, onde os médicos ficam disponíveis para atender apenas metade do mês. Quando os profissionais não estão no local, a solução é se locomover até Tefé — caminho longo para alguém doente ou ferido, principalmente com os rios secos.
“Todos ficamos muito assustados com isso, deu muito medo, é uma situação muito difícil. Esse ano foi um dos anos que parei para refletir… A gente já tem consciência disso, mas esse foi um dos anos mais desafiadores para a gente que mora aqui dentro da reserva. Para sair tem que ter muita coragem”, desabafa a moradora que espera uma realidade diferente em 2025.
Flutuante encalhado na beira do rio Amazonas (Foto: Reprodução/YouTube/Ribeirinhas da Amazônia) |
Esta reportagem contou com o apoio do Programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC), que atua para amplificar ações climáticas locais e busca desempenhar um papel central no debate climático global. A InfoAmazonia faz parte da coalizão “Fortalecimento do ecossistema de dados e inovação cívica na Amazônia Brasileira” com a Associação de Afro Envolvimento Casa Preta, o Coletivo Puraqué, PyLadies Manaus, PyData Manaus e a Open Knowledge Brasil.