{"id":37790,"date":"2020-09-30T15:54:58","date_gmt":"2020-09-30T18:54:58","guid":{"rendered":"https:\/\/cleitonpinheiro.com.br\/portal\/?p=37790"},"modified":"2020-09-30T15:54:58","modified_gmt":"2020-09-30T18:54:58","slug":"automedicacao-e-desafio-da-saude-na-era-das-fake-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cleitonpinheiro.com.br\/site\/automedicacao-e-desafio-da-saude-na-era-das-fake-news\/","title":{"rendered":"Automedica\u00e7\u00e3o \u00e9 desafio da sa\u00fade na era das fake news"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sa\u00fade\u00a0<\/strong>\u00e9 coisa s\u00e9ria para os brasileiros. Pelo menos \u00e9 o que mostra uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA) de 2013, em que 88% dos entrevistados colocaram a melhoria no setor entre suas prioridades.<em> As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o do Portal Terra.<\/em><\/p>\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cleitonpinheiro.com.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Medicamentos-editadooo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-37794\"\/><figcaption><em>F<\/em>oto: Roberto Costa\/C\u00f3digo19 \/ Estad\u00e3o Conte\u00fado<\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 em 2018, antes das elei\u00e7\u00f5es, 4 a cada 10 brasileiros apontaram que a \u00e1rea deveria ser maior foco do novo presidente. Apesar disso, \u00edndices mostram que, na hora de cuidar do pr\u00f3prio corpo, o brasileiro deixa a desejar.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Junto de costumes como o sedentarismo, maus h\u00e1bitos alimentares e descaso com consultas de rotina para check-ups, a&nbsp;<strong>automedica\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong>est\u00e1 entre as pr\u00e1ticas mais comuns no Pa\u00eds. O perigo de tomar rem\u00e9dios sem orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, no entanto, \u00e9 bastante grave, capaz de impactar seriamente n\u00e3o s\u00f3 na vida do paciente como em todo o sistema de sa\u00fade.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Farm\u00e1cia (CFF) em 2019 apontou que 77% dos brasileiros fazem uso de automedica\u00e7\u00e3o. Outro levantamento, feito pelo Instituto de Ci\u00eancia, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) mostrou que 79% dos brasileiros com mais de 16 anos tomam&nbsp;<strong>rem\u00e9dios sem prescri\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong>m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados assustam organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, especialmente em tempos de&nbsp;<strong>pandemia<\/strong>. \u201cA vis\u00e3o e opini\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (OPAS) \u00e9 de que a automedica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 recomendada. Quando falamos sobre rem\u00e9dios, as pessoas devem contatar os m\u00e9dicos, os hospitais, o site do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, para investigar a recomenda\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria\u201d, indica Marcos Espinal, diretor do Departamento de Doen\u00e7as Transmiss\u00edveis da OPAS.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de parecer inofensiva, a automedica\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de causar rea\u00e7\u00f5es adversas ao organismo. A simples combina\u00e7\u00e3o entre col\u00edrios e descongestionantes nasais pode gerar aumento de press\u00e3o. Mulheres que fazem uso de anticoncepcional podem engravidar se ingerirem um antibi\u00f3tico. O uso prolongado de um antiinflamat\u00f3rio n\u00e3o-hormonal pode causar hemorragia digestiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os exemplos n\u00e3o param e v\u00e3o desde alergias, intoxica\u00e7\u00e3o e, em casos mais graves, podem levar \u00e0 morte. O mais preocupante \u00e9 que, muitas vezes, essas consequ\u00eancias s\u00f3 acontecem porque o indiv\u00edduo n\u00e3o buscou um m\u00e9dico antes de tomar a medica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>As causas da automedica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com especialistas, s\u00e3o alguns os fatores que contribuem para os altos \u00edndices de automedica\u00e7\u00e3o no Brasil. O primeiro deles \u00e9 o dif\u00edcil acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade, especialmente em \u00e1reas mais isoladas, quando comparado com o acesso a medicamentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Demora no atendimento, escassez de funcion\u00e1rios e materiais, consultas r\u00e1pidas, falta de aten\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos para com os pacientes\u2026 s\u00e3o in\u00fameros os motivos que fazem com que o brasileiro pense duas vezes antes de ir a um hospital todas as vezes que est\u00e1 com algum problema de sa\u00fade.\u00a0 \u201cMuitas pessoas repetem prescri\u00e7\u00f5es antigas por terem dificuldade para utilizar os servi\u00e7os de sa\u00fade\u201d, explica Arnaldo Lichtenstein, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, a compra da maioria dos rem\u00e9dios \u00e9 facilitada pelas leis locais. \u201cEm alguns pa\u00edses, h\u00e1 maior dificuldade para comprar rem\u00e9dios. No Brasil, temos restri\u00e7\u00e3o com psicotr\u00f3picos e antibi\u00f3ticos, mas outros medicamentos podem ser adquiridos facilmente\u201d, explica Donizetti Giamberardino, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) e diretor t\u00e9cnico e chefe do Servi\u00e7o de Nefrologia Pedi\u00e1trica do Hospital Infantil Pequeno Pr\u00edncipe.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Wellington Barros, consultor do Conselho Federal de Farm\u00e1cia e professor da Universidade Federal do Sergipe, tamb\u00e9m coloca a mercantiliza\u00e7\u00e3o do setor como um problema. \u201cHouve uma banaliza\u00e7\u00e3o da farm\u00e1cia como com\u00e9rcio de conveni\u00eancia e nos medicamentos como produtos\u201d.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A impress\u00e3o de que h\u00e1 \u201cuma farm\u00e1cia em cada esquina\u201d, como simplificou Giamberardino, \u00e9 cada vez mais real. Se usarmos como base a recomenda\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), de que deve-se existir uma farm\u00e1cia para cada 8 mil habitantes, o Brasil est\u00e1 \u201csobrecarregado\u201d, j\u00e1 que segundo \u00faltimos dados do CFF, h\u00e1 uma farm\u00e1cia para cada 2,4 mil pessoas por aqui.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carlos Alberto Bhering, professor de pediatria na Universidade de Vassouras, tamb\u00e9m observa esse fen\u00f4meno&nbsp;e&nbsp;cita ainda a abund\u00e2ncia de propagandas de medicamentos a que a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 exposta. \u201cNo fim dos comerciais eles passam rapidamente aquele recado: \u2018Ao persistir os sintomas, o m\u00e9dico dever\u00e1 ser consultado\u2019 e fica uma coisa quase subliminar logo depois de uma propaganda inteira que prega exatamente o contr\u00e1rio\u201d.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, o m\u00e9dico tamb\u00e9m aponta a quest\u00e3o cultural como um fator importante: \u201cEsse h\u00e1bito est\u00e1 enraizado na cabe\u00e7a das pessoas de todas as classes sociais, independente de acesso\u201d, opina.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMesmo quem vai \u00e0 consulta m\u00e9dica, que tem um diagn\u00f3stico firmado, \u00e9 muito comum a n\u00e3o ades\u00e3o ao tratamento prescrito pelo m\u00e9dico de forma completa. A pessoa n\u00e3o toma todos os medicamentos. N\u00e3o considera que tem que tomar 7 dias de antibi\u00f3tico se ela j\u00e1 est\u00e1 bem no quarto dia\u201d, concorda Giamberardino. \u201cIsso est\u00e1 relacionado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade. As pessoas acabam ouvindo os pais, os amigos, e n\u00e3o os m\u00e9dicos. Como se indicar um rem\u00e9dio fosse algo simples\u201d, completa.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com uma outra pesquisa sobre automedica\u00e7\u00e3o divulgada pelo ICTQ em 2014, 72% das pessoas que admitiram o uso de medicamentos por conta pr\u00f3pria afirmaram confiar na indica\u00e7\u00e3o de familiares e 42,4% na de amigos. Al\u00e9m disso 68,1% das pessoas disseram que recomendam rem\u00e9dios para os outros. 46,1% confessam que n\u00e3o leem a bula antes do consumo.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) tamb\u00e9m citou o fator cultural e falta de acesso para explicar o fen\u00f4meno e reiterou que busca solu\u00e7\u00f5es para minimizar os perigos. \u201cA Anvisa, assim como o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade,&nbsp;tem promovido a\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o para o uso racional de medicamentos e dos riscos resultantes da automedica\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro da quest\u00e3o cultural, a desinforma\u00e7\u00e3o, a falta de confian\u00e7a nos profissionais de sa\u00fade e a no\u00e7\u00e3o de que cada pessoa sabe o que \u00e9 melhor para a pr\u00f3pria sa\u00fade ganharam um enorme combust\u00edvel na \u00faltima d\u00e9cada: as fake news.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Epidemia de not\u00edcias falsas<\/strong><\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 famosas em t\u00f3picos como pol\u00edtica, economia e cultura, as not\u00edcias falsas entraram de cabe\u00e7a no universo da sa\u00fade com a pandemia da covid-19. Entre as mais famosas em grupos da internet, estavam as falsas informa\u00e7\u00f5es de que o v\u00edrus teria sido fabricado em um laborat\u00f3rio na China e de que a doen\u00e7a sequer existia.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, a desinforma\u00e7\u00e3o sempre esteve presente quando o assunto \u00e9 sa\u00fade. Tradi\u00e7\u00f5es familiares e tratamentos alternativos, quase sempre bem intencionados, foram os primeiros a desafiar a ci\u00eancia e serem espalhados como op\u00e7\u00f5es que pudessem substituir indica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas. Hoje, grupos organizados, como o movimento anti-vacina, militam contra evid\u00eancias cient\u00edficas e profissionais de sa\u00fade, fortalecendo ainda mais a&nbsp;descren\u00e7a na ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os especialistas pedem cautela, n\u00e3o descartam a efic\u00e1cia de tratamentos alternativos s\u00e9rios, mas reiteram a import\u00e2ncia de se separar o joio do trigo. \u201c\u00c9 preciso primeiro verificar que tipo de terapia est\u00e1 falando. No caso da ozonioterapia, n\u00e3o \u00e9 alternativa, porque n\u00e3o \u00e9 uma coisa que pode se usar a exemplo de uma homeopatia, que n\u00e3o tem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas \u00e9 aprovada pelo CFM ou acupuntura, que tem comprova\u00e7\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o do conselho.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terapia com oz\u00f4nio n\u00e3o \u00e9 nem reconhecida, portanto \u00e9 considerada charlatanismo\u201d, pondera Lichtenstein, em refer\u00eancia a um tratamento que ganhou visibilidade durante a pandemia depois que o prefeito de Itaja\u00ed (SC),\u00a0Volnei Morastoni (MDB), anunciou que a cidade faria parte de um estudo para avaliar a efic\u00e1cia da ozonioterapia pela via retal no tratamento da covid-19.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO conhecimento popular n\u00e3o pode ser desprezado. Diversos estudos apontam benef\u00edcios de plantas medicinais, por exemplo. Mas n\u00f3s n\u00e3o podemos ignorar a patologia das doen\u00e7as\u201d, opina Rondineli Mendes, pesquisador da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica da Fiocruz. \u201cDurante a pandemia da covid-19, muitas receitas se proliferaram nas redes sociais. Mas isso tem que ser usado com muito cuidado\u201d, complementa.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os m\u00e9dicos tamb\u00e9m pedem para que os pacientes se atentem a poss\u00edveis efeitos colaterais que podem ser causados por diferentes terapias. \u201cAs pessoas tamb\u00e9m pensam que rem\u00e9dios naturais n\u00e3o t\u00eam efeitos colaterais. Essa \u00e9 uma falsa cultura e a sociedade tem que ser alertada. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os rem\u00e9dios da alopatia que tem efeitos colaterais. Os rem\u00e9dios naturais podem causar efeitos t\u00e3o s\u00e9rios quanto\u201d, alerta o vice-presidente do CFF.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a enorme quantidade de not\u00edcias falsas espalhadas nas redes sociais, especialmente no WhatsApp, os m\u00e9dicos demonstram preocupa\u00e7\u00e3o maior. \u201cNa pandemia percebi que houve uma falta de bom senso coletiva, o medo passou a tomar lugar da sensatez. Pessoas passaram a indicar e usar medicamentos sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, relata Ana Cristina Gales, coordenadora do Comit\u00ea de Resist\u00eancia Antimicrobiana e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lichtenstein tamb\u00e9m aponta a covid-19 como um terreno f\u00e9rtil para not\u00edcias falsas. \u201cQuando falamos do cen\u00e1rio da pandemia, isso se exacerbou demais. Ajudou a divulgar muitas medica\u00e7\u00f5es sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tratamentos sem comprova\u00e7\u00e3o e gerou p\u00e2nico.\u201d<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele ainda alerta para as s\u00e9rias consequ\u00eancias que uma not\u00edcia falsa pode ter para a sa\u00fade. \u201cUma fake news sobre pol\u00edtica pode eleger um governador, um presidente. Na medicina, a fake news pode matar. \u00c9 a vida da pessoa que est\u00e1 em risco, diretamente. No come\u00e7o da epidemia algu\u00e9m falou que tomar \u00e1lcool gel seria uma boa ideia e logo depois n\u00f3s vimos mortes no Ir\u00e3 por causa dessa fake news\u201d, lembra o professor da FMUSP.\u00a0<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No pa\u00eds do Oriente M\u00e9dio, mais de 300 morreram e milhares foram hospitalizados ap\u00f3s ingerirem a subst\u00e2ncia. Um estudo publicado em agosto pelo&nbsp;<em>American Journal of Tropical Medicine and Hygiene<\/em>&nbsp;apontou que, ao redor do mundo, foram mais de 800 mortes causadas diretamente por not\u00edcias falsas sobre a pandemia em redes sociais, al\u00e9m de 5,8 mil interna\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de rem\u00e9dios, tratamentos e dados enganosos, os profissionais de sa\u00fade ainda alertam para as campanhas difamat\u00f3rias feitas contra institutos, m\u00e9dicos e pesquisadores.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cJ\u00e1 existe campanha anti-vacina de uma vacina que nem existe\u201d, lamenta Mendes, se referindo \u00e0s pesquisas para uma solu\u00e7\u00e3o contra a covid-19. \u201cParece que a sociedade esqueceu dos benef\u00edcios trazidos pela ci\u00eancia\u201d, completa o pesquisador da Fiocruz.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPra quem n\u00e3o tem uma vis\u00e3o muito pr\u00f3xima da \u00e1rea, as fake news mudam a forma como as pessoas leigas enxergam a ci\u00eancia. As pesquisas s\u00e9rias muitas vezes s\u00e3o questionadas por conta dessas informa\u00e7\u00f5es falsas\u201d, aponta Bhering, que aposta na familiaridade das novas gera\u00e7\u00f5es com as redes para minimizar os efeitos das not\u00edcias falsas. \u201cOs maiores proliferadores de fake news na \u00e1rea da ci\u00eancia certamente s\u00e3o as pessoas mais idosas\u201d, aponta o professor de pediatria, citando a ingenuidade dos mais velhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cl\u00ednica-geral B\u00e1rbara Moreira Machado, que trabalha na ala de covid-19 do Hospital Santa Marcelina, relata que, em tr\u00eas anos como m\u00e9dica, notou uma mudan\u00e7a recente no comportamento dos pacientes, que desafiam sua autoridade como profissional. \u201cMuitos t\u00eam o h\u00e1bito de procurar os sintomas no Google e j\u00e1 chegam pedindo determinados exames. N\u00e3o querem nem que a gente fa\u00e7a o exame cl\u00ednico\u201d, explica.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o ao coronav\u00edrus, ela conta que j\u00e1 foi pressionada por pacientes para prescrever medicamentos que estavam fora dos protocolos recomendados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. \u201cAlguns pacientes nos acusam de n\u00e3o estarmos preocupados com a vida\u201d, diz a m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As campanhas por rem\u00e9dios sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica contra a covid-19 tiveram grande efeito. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo CFF, a prescri\u00e7\u00e3o de drogas que foram relacionadas \u00e0 doen\u00e7a subiu de forma expressiva nos primeiros cinco meses de 2020.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O crescimento de receitas emitidas na plataforma Memed foi de 676,89% para cloroquina, 863,34% para a hidroxicloroquina e 1.921,04% para a ivermectina, medicamentos que, apesar de n\u00e3o terem efic\u00e1cia comprovada pela ci\u00eancia t\u00eam como seu principal incentivador o presidente da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro.\u00a0<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u201cE conheceis a verdade e a verdade vos libertar\u00e1\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o mundo vive um momento de extrema polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, as redes sociais e, em especial, as not\u00edcias falsas se tornaram armas para autoridades p\u00fablicas alcan\u00e7arem popularidade. Como n\u00e3o poderia ser diferente, a ci\u00eancia e a sa\u00fade tamb\u00e9m se transformaram em trincheiras ideol\u00f3gicas, com o Brasil se tornando um dos maiores exemplos da politiza\u00e7\u00e3o da pandemia.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acusado de ter discursos negacionistas sobre temas como o meio ambiente e a ditadura militar no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro &#8211; a exemplo de outros l\u00edderes controversos como o norte-americano Donald Trump e os ditadores de Venezuela, Nicol\u00e1s Maduro e Belarus, Aleksandr Lukashenko &#8211; foi um dos que ignorou a gravidade da pandemia, que chegou a chamar de \u201cgripezinha\u201d, em tom de deboche, al\u00e9m de criticar duramente as medidas de isolamento social.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cE conheceis a verdade e a verdade vos libertar\u00e1\u201d. A passagem b\u00edblica virou um dos maiores slogans do governo Bolsonaro e do presidente que, em um pa\u00eds traumatizado por casos de corrup\u00e7\u00e3o, apostou na honestidade como seu principal atrativo enquanto figura p\u00fablica.&nbsp; Por\u00e9m, o comportamento do presidente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade durante a pandemia tem sido marcado por tantas pol\u00eamicas que chamou a aten\u00e7\u00e3o da imprensa internacional e autoridades sanit\u00e1rias globais.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao acusar, sem provas, governadores de estado e m\u00e9dicos de forjarem atestados de \u00f3bitos falsos para inflar os n\u00fameros da doen\u00e7a e exigir que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade apresentasse relat\u00f3rios di\u00e1rios com \u201cmenos de 1000 mortes\u201d &#8211; fazendo com que a pasta at\u00e9 chegasse a interromper a divulga\u00e7\u00e3o oficial dos dados &#8211;&nbsp;Bolsonaro acabou \u201celeito\u201d pelo Washington Post como o chefe de estado com pior atua\u00e7\u00e3o na pandemia.&nbsp;<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao lado de outros chefes de estado como Trump e Lukashenko, o capit\u00e3o da reserva tamb\u00e9m recebeu o pr\u00eamio Ig Nobel, que seleciona os mais \u201cirrelevantes da ci\u00eancia\u201d. De acordo com a premia\u00e7\u00e3o, os l\u00edderes foram escolhidos por \u201cusar a pandemia de covid-19 para ensinar ao mundo que pol\u00edticos podem ter um efeito mais imediato na vida e na morte do que cientistas e m\u00e9dicos\u201d.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre tantas atitudes que desafiavam a ci\u00eancia, Bolsonaro rapidamente passou a endossar rem\u00e9dios sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para o tratamento da covid-19, em especial a cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSe fosse tudo t\u00e3o f\u00e1cil assim, outros pa\u00edses estariam fazendo a mesma coisa\u201d, destaca Mendes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira como o presidente est\u00e1 atuando frente ao atual cen\u00e1rio. \u201c\u00c0s vezes a discuss\u00e3o fica mais pautada na ideologia e n\u00e3o no m\u00e9todo cient\u00edfico e na busca de alternativas para o benef\u00edcio da sociedade\u201d, analisa o pesquisador da Fiocruz.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A opini\u00e3o \u00e9 compartilhada pelos demais profissionais de sa\u00fade consultados. \u201cInfelizmente se mistura muito a quest\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica com uma coisa t\u00e3o s\u00e9ria quanto a ci\u00eancia m\u00e9dica\u201d, diz Bhering. \u201cO Conselho Federal de Farm\u00e1cia v\u00ea com muita preocupa\u00e7\u00e3o a politiza\u00e7\u00e3o dos tratamentos contra a pandemia\u201d, informa Barros.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A base bolsonarista no entanto, contra-ataca, afirmando&nbsp;que a OMS \u00e9 uma \u201corganiza\u00e7\u00e3o de esquerda\u201d e que os m\u00e9dicos que n\u00e3o prescrevem os rem\u00e9dios endossados pelo presidente n\u00e3o querem curar os pacientes e t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de \u201catrapalhar o governo\u201d.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como consequ\u00eancia da atua\u00e7\u00e3o pol\u00eamica,\u00a0 foram feitas duas trocas no comando do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade em plena crise sanit\u00e1ria, porque os l\u00edderes da pasta n\u00e3o concordaram com\u00a0posicionamentos do presidente.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luiz Henrique Mandetta, que assumiu o cargo no in\u00edcio do governo, foi demitido por orientar a popula\u00e7\u00e3o a seguir os protocolos de sa\u00fade recomendados pela OMS, O agora ex-ministro acaba de lan\u00e7ar um livro sobre sua passagem pelo governo. Na publica\u00e7\u00e3o, ele chama Bolsonaro de \u201cnegacionista da ci\u00eancia\u201d e diz que o interesse do presidente em rem\u00e9dios como a cloroquina s\u00f3 existiu porque ele queria que os brasileiros voltassem ao trabalho o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tamb\u00e9m m\u00e9dico Nelson Teich assumiu e, menos de um m\u00eas depois, pediu demiss\u00e3o por n\u00e3o concordar com o presidente sobre o protocolo para uso da cloroquina. Agora a pasta est\u00e1 sob os cuidados do general Eduardo Pazuello, que assumiu de forma interina, mas foi efetivado no cargo ap\u00f3s tr\u00eas meses por mostrar alinhamento com o presidente. Com o militar no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o protocolo sobre o medicamento mudou, liberando a prescri\u00e7\u00e3o para casos leves da covid-19.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u201cQuem \u00e9 de direita toma cloroquina\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O posicionamento do governo, que no in\u00edcio da pandemia\u00a0 era visto apenas como dissonante em rela\u00e7\u00e3o a \u00f3rg\u00e3os s\u00e9rios de sa\u00fade &#8211; como a pr\u00f3pria pasta e centros de refer\u00eancia de pesquisa &#8211; foi primordial para que o fen\u00f4meno da automedica\u00e7\u00e3o fosse alavancado.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a seriedade da pandemia se mostrou ineg\u00e1vel, com o Brasil se tornando um dos epicentros do coronav\u00edrus, Bolsonaro deixou as demais estrat\u00e9gias de lado, focando na promo\u00e7\u00e3o da cloroquina e hidroxicloroquina. O presidente, inclusive, apontou a si pr\u00f3prio como \u201cprova\u201d da suposta efic\u00e1cia do tratamento, afirmando que fez uso dos medicamentos ap\u00f3s contrair o v\u00edrus.<\/p>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m sempre presente no discurso bolsonarista, o conceito de \u201cliberdade individual\u201d foi invocado pelo presidente para defender o uso indiscriminado de medicamentos. \u201cQuem \u00e9 de direita toma cloroquina, quem \u00e9 de esquerda, Tuba\u00edna\u201d, chegou a afirmar. Apesar disso, Bolsonaro criticou publicamente o que chamou de \u201cpolitiza\u00e7\u00e3o\u201d da droga, culpando a imprensa e advers\u00e1rios pol\u00edticos por falarem contra o uso de f\u00e1rmacos sem comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa\u00fade\u00a0\u00e9 coisa s\u00e9ria para os brasileiros. 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