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Automedicação é desafio da saúde na era das fake news

Saúde é coisa séria para os brasileiros. Pelo menos é o que mostra uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2013, em que 88% dos entrevistados colocaram a melhoria no setor entre suas prioridades. As informações são do Portal Terra.

Foto: Roberto Costa/Código19 / Estadão Conteúdo

Já em 2018, antes das eleições, 4 a cada 10 brasileiros apontaram que a área deveria ser maior foco do novo presidente. Apesar disso, índices mostram que, na hora de cuidar do próprio corpo, o brasileiro deixa a desejar.

Junto de costumes como o sedentarismo, maus hábitos alimentares e descaso com consultas de rotina para check-ups, a automedicação está entre as práticas mais comuns no País. O perigo de tomar remédios sem orientação médica, no entanto, é bastante grave, capaz de impactar seriamente não só na vida do paciente como em todo o sistema de saúde. 

Uma pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) em 2019 apontou que 77% dos brasileiros fazem uso de automedicação. Outro levantamento, feito pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) mostrou que 79% dos brasileiros com mais de 16 anos tomam remédios sem prescrição médica.

Os dados assustam organizações de saúde, especialmente em tempos de pandemia. “A visão e opinião da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) é de que a automedicação não é recomendada. Quando falamos sobre remédios, as pessoas devem contatar os médicos, os hospitais, o site do Ministério da Saúde, para investigar a recomendação sanitária”, indica Marcos Espinal, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis da OPAS.

Apesar de parecer inofensiva, a automedicação é capaz de causar reações adversas ao organismo. A simples combinação entre colírios e descongestionantes nasais pode gerar aumento de pressão. Mulheres que fazem uso de anticoncepcional podem engravidar se ingerirem um antibiótico. O uso prolongado de um antiinflamatório não-hormonal pode causar hemorragia digestiva. 

Os exemplos não param e vão desde alergias, intoxicação e, em casos mais graves, podem levar à morte. O mais preocupante é que, muitas vezes, essas consequências só acontecem porque o indivíduo não buscou um médico antes de tomar a medicação.

As causas da automedicação

De acordo com especialistas, são alguns os fatores que contribuem para os altos índices de automedicação no Brasil. O primeiro deles é o difícil acesso a serviços de saúde, especialmente em áreas mais isoladas, quando comparado com o acesso a medicamentos. 

Demora no atendimento, escassez de funcionários e materiais, consultas rápidas, falta de atenção dos médicos para com os pacientes… são inúmeros os motivos que fazem com que o brasileiro pense duas vezes antes de ir a um hospital todas as vezes que está com algum problema de saúde.  “Muitas pessoas repetem prescrições antigas por terem dificuldade para utilizar os serviços de saúde”, explica Arnaldo Lichtenstein, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Por outro lado, a compra da maioria dos remédios é facilitada pelas leis locais. “Em alguns países, há maior dificuldade para comprar remédios. No Brasil, temos restrição com psicotrópicos e antibióticos, mas outros medicamentos podem ser adquiridos facilmente”, explica Donizetti Giamberardino, vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) e diretor técnico e chefe do Serviço de Nefrologia Pediátrica do Hospital Infantil Pequeno Príncipe.

Wellington Barros, consultor do Conselho Federal de Farmácia e professor da Universidade Federal do Sergipe, também coloca a mercantilização do setor como um problema. “Houve uma banalização da farmácia como comércio de conveniência e nos medicamentos como produtos”.

A impressão de que há “uma farmácia em cada esquina”, como simplificou Giamberardino, é cada vez mais real. Se usarmos como base a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que deve-se existir uma farmácia para cada 8 mil habitantes, o Brasil está “sobrecarregado”, já que segundo últimos dados do CFF, há uma farmácia para cada 2,4 mil pessoas por aqui.

Carlos Alberto Bhering, professor de pediatria na Universidade de Vassouras, também observa esse fenômeno e cita ainda a abundância de propagandas de medicamentos a que a população é exposta. “No fim dos comerciais eles passam rapidamente aquele recado: ‘Ao persistir os sintomas, o médico deverá ser consultado’ e fica uma coisa quase subliminar logo depois de uma propaganda inteira que prega exatamente o contrário”.

No entanto, o médico também aponta a questão cultural como um fator importante: “Esse hábito está enraizado na cabeça das pessoas de todas as classes sociais, independente de acesso”, opina.

“Mesmo quem vai à consulta médica, que tem um diagnóstico firmado, é muito comum a não adesão ao tratamento prescrito pelo médico de forma completa. A pessoa não toma todos os medicamentos. Não considera que tem que tomar 7 dias de antibiótico se ela já está bem no quarto dia”, concorda Giamberardino. “Isso está relacionado à educação de saúde. As pessoas acabam ouvindo os pais, os amigos, e não os médicos. Como se indicar um remédio fosse algo simples”, completa.

De acordo com uma outra pesquisa sobre automedicação divulgada pelo ICTQ em 2014, 72% das pessoas que admitiram o uso de medicamentos por conta própria afirmaram confiar na indicação de familiares e 42,4% na de amigos. Além disso 68,1% das pessoas disseram que recomendam remédios para os outros. 46,1% confessam que não leem a bula antes do consumo.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também citou o fator cultural e falta de acesso para explicar o fenômeno e reiterou que busca soluções para minimizar os perigos. “A Anvisa, assim como o Ministério da Saúde, tem promovido ações de conscientização da população para o uso racional de medicamentos e dos riscos resultantes da automedicação”.

Dentro da questão cultural, a desinformação, a falta de confiança nos profissionais de saúde e a noção de que cada pessoa sabe o que é melhor para a própria saúde ganharam um enorme combustível na última década: as fake news.

Epidemia de notícias falsas

Já famosas em tópicos como política, economia e cultura, as notícias falsas entraram de cabeça no universo da saúde com a pandemia da covid-19. Entre as mais famosas em grupos da internet, estavam as falsas informações de que o vírus teria sido fabricado em um laboratório na China e de que a doença sequer existia. 

No entanto, a desinformação sempre esteve presente quando o assunto é saúde. Tradições familiares e tratamentos alternativos, quase sempre bem intencionados, foram os primeiros a desafiar a ciência e serem espalhados como opções que pudessem substituir indicações médicas. Hoje, grupos organizados, como o movimento anti-vacina, militam contra evidências científicas e profissionais de saúde, fortalecendo ainda mais a descrença na ciência.

Os especialistas pedem cautela, não descartam a eficácia de tratamentos alternativos sérios, mas reiteram a importância de se separar o joio do trigo. “É preciso primeiro verificar que tipo de terapia está falando. No caso da ozonioterapia, não é alternativa, porque não é uma coisa que pode se usar a exemplo de uma homeopatia, que não tem comprovação científica, mas é aprovada pelo CFM ou acupuntura, que tem comprovação e aprovação do conselho.

A terapia com ozônio não é nem reconhecida, portanto é considerada charlatanismo”, pondera Lichtenstein, em referência a um tratamento que ganhou visibilidade durante a pandemia depois que o prefeito de Itajaí (SC), Volnei Morastoni (MDB), anunciou que a cidade faria parte de um estudo para avaliar a eficácia da ozonioterapia pela via retal no tratamento da covid-19.

“O conhecimento popular não pode ser desprezado. Diversos estudos apontam benefícios de plantas medicinais, por exemplo. Mas nós não podemos ignorar a patologia das doenças”, opina Rondineli Mendes, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “Durante a pandemia da covid-19, muitas receitas se proliferaram nas redes sociais. Mas isso tem que ser usado com muito cuidado”, complementa. 

Os médicos também pedem para que os pacientes se atentem a possíveis efeitos colaterais que podem ser causados por diferentes terapias. “As pessoas também pensam que remédios naturais não têm efeitos colaterais. Essa é uma falsa cultura e a sociedade tem que ser alertada. Não são só os remédios da alopatia que tem efeitos colaterais. Os remédios naturais podem causar efeitos tão sérios quanto”, alerta o vice-presidente do CFF. 

Sobre a enorme quantidade de notícias falsas espalhadas nas redes sociais, especialmente no WhatsApp, os médicos demonstram preocupação maior. “Na pandemia percebi que houve uma falta de bom senso coletiva, o medo passou a tomar lugar da sensatez. Pessoas passaram a indicar e usar medicamentos sem comprovação científica”, relata Ana Cristina Gales, coordenadora do Comitê de Resistência Antimicrobiana e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Lichtenstein também aponta a covid-19 como um terreno fértil para notícias falsas. “Quando falamos do cenário da pandemia, isso se exacerbou demais. Ajudou a divulgar muitas medicações sem comprovação científica, tratamentos sem comprovação e gerou pânico.”

Ele ainda alerta para as sérias consequências que uma notícia falsa pode ter para a saúde. “Uma fake news sobre política pode eleger um governador, um presidente. Na medicina, a fake news pode matar. É a vida da pessoa que está em risco, diretamente. No começo da epidemia alguém falou que tomar álcool gel seria uma boa ideia e logo depois nós vimos mortes no Irã por causa dessa fake news”, lembra o professor da FMUSP. 

No país do Oriente Médio, mais de 300 morreram e milhares foram hospitalizados após ingerirem a substância. Um estudo publicado em agosto pelo American Journal of Tropical Medicine and Hygiene apontou que, ao redor do mundo, foram mais de 800 mortes causadas diretamente por notícias falsas sobre a pandemia em redes sociais, além de 5,8 mil internações.

Além de remédios, tratamentos e dados enganosos, os profissionais de saúde ainda alertam para as campanhas difamatórias feitas contra institutos, médicos e pesquisadores. 

“Já existe campanha anti-vacina de uma vacina que nem existe”, lamenta Mendes, se referindo às pesquisas para uma solução contra a covid-19. “Parece que a sociedade esqueceu dos benefícios trazidos pela ciência”, completa o pesquisador da Fiocruz.

“Pra quem não tem uma visão muito próxima da área, as fake news mudam a forma como as pessoas leigas enxergam a ciência. As pesquisas sérias muitas vezes são questionadas por conta dessas informações falsas”, aponta Bhering, que aposta na familiaridade das novas gerações com as redes para minimizar os efeitos das notícias falsas. “Os maiores proliferadores de fake news na área da ciência certamente são as pessoas mais idosas”, aponta o professor de pediatria, citando a ingenuidade dos mais velhos. 

A clínica-geral Bárbara Moreira Machado, que trabalha na ala de covid-19 do Hospital Santa Marcelina, relata que, em três anos como médica, notou uma mudança recente no comportamento dos pacientes, que desafiam sua autoridade como profissional. “Muitos têm o hábito de procurar os sintomas no Google e já chegam pedindo determinados exames. Não querem nem que a gente faça o exame clínico”, explica.

Em relação ao coronavírus, ela conta que já foi pressionada por pacientes para prescrever medicamentos que estavam fora dos protocolos recomendados pelo Ministério da Saúde. “Alguns pacientes nos acusam de não estarmos preocupados com a vida”, diz a médica.

As campanhas por remédios sem comprovação científica contra a covid-19 tiveram grande efeito. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo CFF, a prescrição de drogas que foram relacionadas à doença subiu de forma expressiva nos primeiros cinco meses de 2020.

O crescimento de receitas emitidas na plataforma Memed foi de 676,89% para cloroquina, 863,34% para a hidroxicloroquina e 1.921,04% para a ivermectina, medicamentos que, apesar de não terem eficácia comprovada pela ciência têm como seu principal incentivador o presidente da República, Jair Bolsonaro. 

“E conheceis a verdade e a verdade vos libertará”

Enquanto o mundo vive um momento de extrema polarização política, as redes sociais e, em especial, as notícias falsas se tornaram armas para autoridades públicas alcançarem popularidade. Como não poderia ser diferente, a ciência e a saúde também se transformaram em trincheiras ideológicas, com o Brasil se tornando um dos maiores exemplos da politização da pandemia.

Acusado de ter discursos negacionistas sobre temas como o meio ambiente e a ditadura militar no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro – a exemplo de outros líderes controversos como o norte-americano Donald Trump e os ditadores de Venezuela, Nicolás Maduro e Belarus, Aleksandr Lukashenko – foi um dos que ignorou a gravidade da pandemia, que chegou a chamar de “gripezinha”, em tom de deboche, além de criticar duramente as medidas de isolamento social. 

“E conheceis a verdade e a verdade vos libertará”. A passagem bíblica virou um dos maiores slogans do governo Bolsonaro e do presidente que, em um país traumatizado por casos de corrupção, apostou na honestidade como seu principal atrativo enquanto figura pública.  Porém, o comportamento do presidente em relação à saúde durante a pandemia tem sido marcado por tantas polêmicas que chamou a atenção da imprensa internacional e autoridades sanitárias globais. 

Ao acusar, sem provas, governadores de estado e médicos de forjarem atestados de óbitos falsos para inflar os números da doença e exigir que o Ministério da Saúde apresentasse relatórios diários com “menos de 1000 mortes” – fazendo com que a pasta até chegasse a interromper a divulgação oficial dos dados – Bolsonaro acabou “eleito” pelo Washington Post como o chefe de estado com pior atuação na pandemia. 

Ao lado de outros chefes de estado como Trump e Lukashenko, o capitão da reserva também recebeu o prêmio Ig Nobel, que seleciona os mais “irrelevantes da ciência”. De acordo com a premiação, os líderes foram escolhidos por “usar a pandemia de covid-19 para ensinar ao mundo que políticos podem ter um efeito mais imediato na vida e na morte do que cientistas e médicos”.

Entre tantas atitudes que desafiavam a ciência, Bolsonaro rapidamente passou a endossar remédios sem comprovação científica para o tratamento da covid-19, em especial a cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina.

“Se fosse tudo tão fácil assim, outros países estariam fazendo a mesma coisa”, destaca Mendes em relação à maneira como o presidente está atuando frente ao atual cenário. “Às vezes a discussão fica mais pautada na ideologia e não no método científico e na busca de alternativas para o benefício da sociedade”, analisa o pesquisador da Fiocruz.

A opinião é compartilhada pelos demais profissionais de saúde consultados. “Infelizmente se mistura muito a questão político-ideológica com uma coisa tão séria quanto a ciência médica”, diz Bhering. “O Conselho Federal de Farmácia vê com muita preocupação a politização dos tratamentos contra a pandemia”, informa Barros.

A base bolsonarista no entanto, contra-ataca, afirmando que a OMS é uma “organização de esquerda” e que os médicos que não prescrevem os remédios endossados pelo presidente não querem curar os pacientes e têm a intenção de “atrapalhar o governo”.

Como consequência da atuação polêmica,  foram feitas duas trocas no comando do Ministério da Saúde em plena crise sanitária, porque os líderes da pasta não concordaram com posicionamentos do presidente.

Luiz Henrique Mandetta, que assumiu o cargo no início do governo, foi demitido por orientar a população a seguir os protocolos de saúde recomendados pela OMS, O agora ex-ministro acaba de lançar um livro sobre sua passagem pelo governo. Na publicação, ele chama Bolsonaro de “negacionista da ciência” e diz que o interesse do presidente em remédios como a cloroquina só existiu porque ele queria que os brasileiros voltassem ao trabalho o mais rápido possível.

O também médico Nelson Teich assumiu e, menos de um mês depois, pediu demissão por não concordar com o presidente sobre o protocolo para uso da cloroquina. Agora a pasta está sob os cuidados do general Eduardo Pazuello, que assumiu de forma interina, mas foi efetivado no cargo após três meses por mostrar alinhamento com o presidente. Com o militar no Ministério da Saúde, o protocolo sobre o medicamento mudou, liberando a prescrição para casos leves da covid-19.

“Quem é de direita toma cloroquina”

O posicionamento do governo, que no início da pandemia  era visto apenas como dissonante em relação a órgãos sérios de saúde – como a própria pasta e centros de referência de pesquisa – foi primordial para que o fenômeno da automedicação fosse alavancado.

Quando a seriedade da pandemia se mostrou inegável, com o Brasil se tornando um dos epicentros do coronavírus, Bolsonaro deixou as demais estratégias de lado, focando na promoção da cloroquina e hidroxicloroquina. O presidente, inclusive, apontou a si próprio como “prova” da suposta eficácia do tratamento, afirmando que fez uso dos medicamentos após contrair o vírus.

Também sempre presente no discurso bolsonarista, o conceito de “liberdade individual” foi invocado pelo presidente para defender o uso indiscriminado de medicamentos. “Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda, Tubaína”, chegou a afirmar. Apesar disso, Bolsonaro criticou publicamente o que chamou de “politização” da droga, culpando a imprensa e adversários políticos por falarem contra o uso de fármacos sem comprovação científica.

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