Por Ketley Ionar Teles Curcino

Em uma conjuntura de pós-modernidade e globalização marcado por profundas mudanças, onde estamos imersos a um turbilhão de informações, os fatos vêm perdendo sua solidez. Os seres humanos estão cada vez mais acreditando no que querem, passando assim a selecionar a verdade. Um exemplo bem claro é que se as informações que andam circulando forem ao encontro das suas convicções, as tratam como verdade, caso contrário, passa a ser tratada como não verdade. A verdade e a mentira então vêm perdendo solidez e passando por sua vez a ser um processo seletivo.
Entretanto, as fakes têm um poder nefasto muito grande. Para além da finalidade que apresenta ser puramente comercial, as falsas notícias são utilizadas para legitimar um pensamento que por muitas vezes é pautado por meio de mentiras e disseminação do ódio. Acrescendo a essas atribuições estimulam posicionamentos que alimentam o preconceito, interfere em processos políticos e eleitorais, causando assim danos prejudiciais à sociedade.
O excesso de informações nos leva a um labirinto com diversas portas, chamando-nos sempre a responsabilidade de checar as informações antes de repassá-las adiante. Em um cenário social e histórico, as propagações das falsas notícias foram responsabilizadoras por afirmarem o seu poder nefasto nas pandemias.
Durante a propagação da Cólera que ocorreu no século XIX a negação da existência de uma pandemia foi evidente no país português. Ao excluir um problema de ordem sanitária a sociedade sustentava assim o seu discurso por meio de fakes, chegando a afirmar que: “Estamos no período que mais é para recear, estamos no tempo dos pepinos, das ameixas, das frutas mal sazonadas, que os nossos camponeses, não por fome, mas por vício e repreensível abuso não deixam de comer” (O Século, 14 ago. 1855, p.2).
Analisando o trecho acima parafraseado encontramos um discurso sustentado pelo preconceito, na necessidade de se afirmar uma mentira para legitimar uma não verdade: que os pobres estavam doentes por sua própria culpa, porque tinham vícios e comportamentos repreensíveis.
Embasado nessas atribuições cabe-nos um questionamento. Qual deve ser o real papel da imprensa e das mídias em nossa sociedade? De uma coisa podemos ter certeza, as controvérsias sempre estiveram presentes com grande intensidade em nosso meio. O que contribui então para a formação alimentada pela alta audiência? Tomando por base a análise feita por Maria Antónia, podemos afirmar que: “a imprensa desse período tentou encontrar explicações científicas e racionais para o flagelo a que se assistia e criticou veemente os costumes populares, em especial os religiosos, que privilegiavam as explicações sobrenaturais” (ALMEIDA, Maria Antónia Pires).
Vigorante no século XX a pandemia esquecida, denominada por gripe de Hong Kong foi a terceira pandemia de gripe do século. Em 1968 onde grandes holofotes dominavam a Europa, o mal se propagava mais uma vez na história sendo alvo de negações. A não afirmação de uma pandemia, dessa vez por não poder mostrar sinais de fragilidade diante de um problema de saúde básica foi propagado por meio das falsas notícias, desconsiderando medidas sanitárias e afirmando ser apenas uma simples virose de gripe.
Considerando tais quesitos, na gripe espanhola de 1918 tivemos um grande alarde na disseminação das falas notícias sobre as receitas de “tratamentos infalíveis”. Boatos por toda parte se espalhavam, jornais, cartas e impressas noticiavam curas para conter o vírus. Desde a indicação de pitadas de tabaco, balas de ervas até tônicos. De fácil propagação e contágio pelo ar, recomendavam até mesmo queimar alfazema ou incenso para “limpar o ar”, lembrando que tudo sem comprovação científica.
Falsos alarmes como esses deixou a população em grande fervor e agitação atrás de remédios que para eles seriam a cura. Em uma época onde não se tinha avanços na ciência e laboratórios pessoas alvoroçadas e com grande medo secaram prateleiras de vendas de sal de quinino, outras até ingestão de cachaça com mel e limão fizeram.
Pertinente em pleno século XXI, o novo coronavírus (COVID-19) soma-se a esse turbilhão de informações tornando cada vez mais suscetível a propagação das falsas notícias. Em uma sociedade onde os fatos vêm perdendo sua solidez, é nosso dever enquanto cidadãos buscar uma comprovação e veracidade dos fatos antes mesmo de passá-los adiante. De certo, é que não podemos nos permitir de ser alimentados por opiniões inverídicas para fazer delas a nossa verdade, provocando por meio dessas, discursos ofensivos e desfavoráveis. Alimentar e sustentar uma mentira significa negar a si mesmo a existência de uma verdade libertadora.
Parabéns, excelente texto!