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Os desafios no combate ao covid-19 para Araguaína e sua região de influência

Por Eliseu Pereira Brito e Reges Sodré

A cidade de Araguaína é o principal centro urbano do norte do Tocantins com uma população estimada em 2019 de 180.470 habitantes (IBGE, 2020). Sua região Imediata concentra uma população de 326.132 habitantes sendo a segunda maior em número de população do Tocantins, atrás apenas de Palmas que tem 333.067 habitantes. Sua região Intermediária concentra uma população de 676.049 habitantes, a mais populosa do Estado, mas sua área de abrangência ultrapassa os limites estaduais, alcança municípios dos estados do Pará e Maranhão.

Araguaína exerce um papel importante na região tanto na produção, distribuição e gestão do território. Conhecida pela dinâmica de sua agropecuária e de toda a rede de empresas e serviços voltados para o agronegócio, a cidade também exerce um papel importante nos serviços de saúde para sua região. Este papel na rede urbana é um fator positivo para a cidade, mas em momento de pandemia deve ser uma variável que não pode ser desprezada, pois torna-se motivo de preocupação sobre o impacto no serviço de saúde.

Recentemente, o IBGE publicou, em dados preliminares, o estudo “Região de Influência das Cidades – REGIC”, com a finalidade de auxiliar no planejamento de políticas públicas voltadas para o combate ao covid-19. O estudo mapeia os deslocamentos em busca de serviços de saúde de baixa, média e alta complexidade. A partir desse trabalho, é possível saber quantos municípios dependem dos serviços médicos de Araguaína e quais são suas infraestruturas.

Consideramos apenas os deslocamentos de alta complexidade, pois são eles que possuem o potencial de saturar o sistema de saúde de Araguaína no combate ao covid-19. Tratamentos de alta complexidade “demanda um alto custo financeiro envolvendo internação, cirurgias, ressonância magnética, tomografia e tratamentos de câncer” (IBGE, 2020, p. 9). O deslocamento em busca desse tipo de tratamento tem um alcance espacial que é o dobro daquele referido ao de baixa e média complexidade.

Essas distâncias percorridas, de um município com pequena cidade, em direção a um centro intermediário ou capital é muito maior na região Norte (276 km) do que na região Sudeste (100 km), em condições viárias também distintas. Esse dado é relevante ao demonstrar que não somente a escassez de serviços médicos nessa região é uma preocupação, mas as distâncias a serem percorridas até o atendimento se torna um desafio em caso de disseminação do covid-19.

Araguaína é a principal referência em serviços de alta complexidade para 47 municípios do norte do Tocantins, Sul do Pará e Maranhão. Além desse grupo, há aqueles pacientes que também procuram Araguaína, mas que a cidade não é a primeira opção, estes são cerca de 76 municípios. Juntos, esses 123 municípios dependem, direta ou indiretamente dos serviços de saúde de Araguaína.

A estimativa realizada pelo IBGE são de que aproximadamente 571 mil pessoas procuram Araguaína para serviços de alta complexidade. Trata-se de uma quantidade significativa, que a cidade só é capaz de absorver em virtude da dispersão temporal dessas procuras e da diversidade de atividades que são requeridas, desde tratamento de câncer a realização apenas de consulta seguida por uma ressonância magnética.

No caso do covid-19, a situação pode ser diferente (BENNHOLD, 2020). Se não houver isolamento e as outras medidas capazes de conter a disseminação do vírus (MALLAPATY, 2020), o uso do sistema de saúde é intenso em um curto intervalo de tempo, inviabilizando o tratamento de quem necessita. Além disso, parte desses casos podem necessitar de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), que possuem uma presença diminuta em Araguaína e região.

Conforme dados do DataSUS (2020/2), apenas uma cidade, Parauapebas (290 km de distância), cujos fluxos principais de saúde se destinam a Araguaína, tem UTI. Lá são cerca de 20 UTIs e cerca de 46 respiradores. Outras quatro cidades, Filadélfia, Colinas do Tocantins, Tocantinópolis e Nova Olinda, aparecem com respiradores, mas sem leitos de tratamento intensivo. Além disso, é apenas em Parauapebas e Colinas do Tocantins que existem aparelho de realizar Tomografia Computadorizada, fundamental no diagnóstico de pneumonia causada pelo covid-19.

Em Araguaína, ainda segundo dados do DataSUS (2020/2), tinham 29 Unidade de Terapia Intensiva para adultos em fevereiro. Quanto aos respiradores eram cerca de 79 unidades, mas que não funcionam sozinhos, precisam de uma estrutura hospitalar preparada. Trata-se de um número limitado, uma vez que até 5% dos infectados por covid-19 podem precisar desse tipo de atendimento (VEJA, 2020).

Um outro ponto importante a ser ressaltado é o papel de Araguaína na sua rede urbana que diferencia de Palmas. A capital possui uma rede urbana diferenciada por ter centro com papel de complementação urbana, caso de Paraíso do Tocantins que tem influência sobre a região da Ilha do Bananal; Porto Nacional que tem papel importante na região sudeste do Tocantins e Jalapão. Estes centros exercem papel nodal para a cidade de suas regiões e intermediário para a capital. Tem hospitais e um serviço de saúde que atende a demanda regional. Em contrapartida, a região Imediata de influência de Araguaína não tem centro intermediário, a população se direciona como primeira opção para suas consultas e tratamentos. Estamos falando de até 150km de distância entre a cidade e Araguaína, o que pressiona o sistema de saúde da cidade que recebe e torna frágil a cidade que envia por conta do transporte de pacientes.

Limites ao “isolamento vertical” em Araguaína

Uma das estratégias da prefeitura de Araguaína para combater o avanço do Covid-19 e reduzir o impacto no sistema de saúde é a do isolamento das pessoas pertencentes aos grupos de riscos, os quais inclui, principalmente idosos e pessoas com alguma comorbidade. Diante disso, é necessário uma estimativa da quantidade de pessoas pertencentes a esse grupo de risco e a viabilidade de seu isolamento.

Embora não tenhamos dados atualizados da dinâmica populacional, tendo em vista que o último censo demográfico ocorreu em 2010, os dados daquele levantamento nos indicam diversos elementos para pensar o impacto do covid-19 em nosso município. Em 2010, tínhamos cerca de 11.088 pessoas com mais de 60 anos, ou seja, 7% de nossa população era idosa. Como o Brasil vive um processo de transição demográfica (IBGE, 2015), passados 10 anos do último censo, esse número de idosos e seu percentual, certamente está subestimado, mas de toda maneira, é um número já considerável, pensando em uma região de ocupação tardia.

Para que os idosos e os outros grupos de riscos tenham a possibilidade de adotar o isolamento vertical são necessárias condições habitacionais adequadas, que possibilitem o isolamento dentro da própria casa, em quarto ou cômodo separado, e que os recursos sanitários estejam disponíveis, tais como acesso a água potável, sabão e, eventualmente, álcool gel 70%.

Conforme o IBGE, em Araguaína tínhamos 6.884 domicílios em que habitavam 3 pessoas em um único quarto; e em 2.752 domicílios eram mais de 3 pessoas. Ao todo, portanto, são 9.636 domicílios nos quais torna-se inviável o isolamento de alguém com risco ou que tenha a suspeição de ter contraído o Covid-19. Esse grupo, considerando apenas o menor indicador, 3 e 4 habitantes, somam 31.660 mil pessoas.

Percebe-se que para parcela significativa da população araguainense a ideia de isolamento social seletivo é meramente ficção. Se os mais jovens saírem para trabalhar ou se apropriar de meios e espaços de consumo, no retorno a casa, eles necessariamente entrariam em contato com todos os residentes, pois dividem o mesmo quarto para dormir. A chance de contaminação de grupos vulneráveis se eleva nesse caso.

Referência

BELLEI, Tânia S S; CHAVES, Nancy. SARS-COV-2, o novo Coronavírus: uma reflexão sobre a saúde única (one health) e a importância da medicina de viagem na emergência de novos patógenos. Rev. Med (são Paulo), São Paulo, v. , n. , p. 1-4, fev. 2020. Bimestral. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revistadc/article/view/167173/159662. Acesso em: 06 abr. 2020.

BENNHOLD, Katrin (EUA). A German Exception?: : Why the Country’s Coronavirus Death Rate Is Low. The New York Times. New York, p. 1-2. 06 abr. 2020. Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/04/04/world/europe/germany-coronavirus-death-rate.html. Acesso em: 07 abr. 2020.

DATASUS. Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2020.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/>. Acesso em: 05 abr. 2020.

IBGE. Mudança Demográfica no Brasil no Início do Século XXI: subsídios para as projeções da população. Rio de Janeiro, 2015.

IBGE. Pesquisa Regiões de Influência das Cidades: informações de deslocamentos para serviços de saúde. Vol. Especial. Rio de Janeiro: IBGE, 2020.

MALLAPATY, Smriti. How sewage could reveal true scale of coronavirus outbreak. Nature, v. 580, n. 7802, p. 176-177, abr. 2020. Springer Science and Business Media LLC. http://dx.doi.org/10.1038/d41586-020-00973-x. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-020-00973-x. Acesso em: 07 abr. 2020.

ONU NEWS. Organização Pan-americana da Saúde (ed.). Opas: covid-19 deverá piorar antes de melhorar nas Américas. 2020. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2020/03/1709022. Acesso em: 07 abr. 2020.

VEJA. (Brasil) (ed.). Coronavírus: : apenas 5% dos casos são graves, diz OMS. Veja Online. São Paulo, p. 1-2. 18 fev. 2020. Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/coronavirus-apenas-5-dos-casos-sao-graves-diz-oms/. Acesso em: 07 abr. 2020.

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